27/07/2005 | por Thiago DJ
César Lost Carpanez brincou de Glauber Rocha, punk. Afinal, foi com “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” que a turnê "Por Favor Me Entenda Mal Tour 2005” registrou imagens de palco e bastidores de Mukeka di Rato [ES], Paura [SP], Glória [SP] e Sugar Kane [PR]. As bandas rodaram uma semana por seis cidades, com shows diários, entre São Paulo e Paraná, captando, imagens, para um futuro DVD. Pra isso foi preciso um ônibus, equipe de filmagem, técnico de som, fotógrafo, roadies, assistentes, malucos de plantão, donos de selo, promotores de shows - além é claro de muita disposição, risadas e discussões, que fizeram a idéia de Lost, uma turnê pioneira. Acompanhei parte dessa turnê, convivi com os caras das bandas no bumba e mais uma vez comprovei que o punk/hardcore, apesar de inúmeras mudanças, continua sendo o estilo mais “faça você mesmo” do planeta.
A turnê começou na terça, 5 de julho, em Campinas, mais exatamente na Kraft. Na quarta, 6 de julho, foi a vez do ABC paulista, com um show no Volkana. Minha pentelhação nessa balada começou na quinta, na minha cidade natal, Osasco, na grande São Paulo. O local escolhido foi o Arena e a abertura ficou por conta do Dead System, boa banda que faz um som pesado e que vez ou outra insere vocais melódicos no meio dos sons. Nesse dia me chamaram a atenção os shows do Glória e do Mukeka Di Rato. Eu nunca havia visto o Glória ao vivo. O show é bem legal [eu não peguei nenhum show deles com velas, pinturas ou caveiras] e o som é um emocore gritadão, com direito a versões de Chico Science & Nação Zumbi e Los Hermanos. O Mukeka fechou a noite com o seu hardcore tosco e a incrível presença de um traveco no palco, devidamente convidado pelo Mi [Vocal do Glória], para essa apresentação. Foi hilário!
Sexta, 8 de julho, foi dia de show no Hangar, mas com o caos de São Paulo, não consegui chegar pra ver as apresentações. No sábado, 9 de julho, o Waltur [apelido que a gente deu pro motorista do ônibus], marcou saída da frente do Hangar 110 pras duas da tarde. Lógico que eu perdi o horário. Acordei às 7 da noite com o Mozine [baixista do MDR] me ligando e escalando pra eu ir até a rodoviária pegar um ônibus pra Mogi das Cruzes. E lá fui eu...O show de Mogi tava lotado, cheguei no meio da apresentação do Paura, o palco era baixo, o hardcore metal dos caras comia solto. Não dava pra ver muita coisa, só pra ouvir. Tentei chegar mais perto do palco, rolava um pogo monstro, com algumas brigas, mas nada que estragasse a festa. Quando subi ao camarim, me espantei com a infraestrutura da organização. O fotógrafo Diogo [Distúrbios], tirava as fotos, e o Césinha [Highlight], idealizador do projeto, já ia mandando tudo pro site.
Terminado o show de Mogi, equipamentos guardados, todos em volta do ônibus, agora também contando com o Envydust [SP], que além de ter tocado nesse dia, se apresentaria no show de Curitiba no dia seguinte. Começam então as palhaçadas. Vários membros da diligência são devidamente apelidados. Saem daí nomes como Rogério Ladrão [guitar do Paura], Chapeuzinho [Roadie], B5 [Gê – Guitar do Glória] e BCincão [Brék – Batera do MDR], Véiu do Rio [Ailton – Travolta Discos], Gordinho [Marcelo – 2UP], Beiçola [Envydust], Jade [Batera – Envydust], Anão [Mi – Vocal do Glória], FranFresco [Francesco Copolla], Travis [Jonis – Baixista do Glória]. Não é Travis de alguma banda gringa tipo Blink 182, mas porque o cara levou um travesseiro pra dormir na viajem e como tinha pouco exu, já pesaram na dele.
Me alojei no fundo do busão, que parecia uma cela de cadeia com montes de fotos de mulheres peladas coladas nas paredes e frases como “vidradas em picas”. Nessa fase da viagem começa o batismo, com a veiarada do fundo [MDR, Paura] arrastando a molecada da frente [Glória e Envydust] pra ser batizada lá atrás, tudo no maior bom humor. Faltou o Sugar Kane aí né? Os caras eram território neutro, só fugindo da regra os roadies deles, Arnilha, Lasanha e Caracol, devidamente enquadrados à quadrilha do fundão.
Segunda fase da viagem pra Curitiba “Missão Ninguém Dorme”. O Cebola, doidão de plantão das noites de Sampa, começa a recitar seus Hits “Mamadeira do Diabo” e “Chupa o Pinto do Macaco” em versões Funk, Axé, AC/DC, Dance of Days e a melhor de todas, Scorpions. Os backing vocals ficaram a cargo do Fábio [Vocal do Paura]. Daí pra frente, foi bagunça até o Paraná.
Chegamos de manhã ao Moohay em Curitiba. Alguns ficam pra arrumar as coisas, outros como eu foram descansar e, à noite, toda a corja tava reunida de novo. Cheguei tarde, o Glória já ia entrar no palco, a casa tava cheia e os moleques levantaram a platéia. No meio do show o Mozine sobe do nada no palco e dá um abraço no B5, ninguém entende nada, mas todo mundo racha o bico, cada loco com a sua mania.
Antes do Mukeka se apresentar, todo o povo da tour se reúne no palco pra acompanhar o maestro Cebola entoando os hits “Mamadeira do Diabo” e “Chupa o Pinto do Macaco”. Uma bagunça só, preparando terreno pros capixabas estraçalhararem Curitiba. Capetas devidamente encarnados naquelas carcaças, os caras fizeram todo mundo cantar, pogar e dar vários “Moshs” [sim, “Mosh”, porque eu sou velho].
Até então eu não tinha conseguido prestar atenção no som do Sugar Kane, confesso que não é muito a minha praia e é meio complicado julgar uma banda sem vê-la ao vivo. Atrás do palco do Moohay, tinha um camarim com um vidro, dava pra ver os shows de lá. O Mozine me chamou e falou pra eu prestar atenção no batera do “Cana de Açúcar”. O cara é foda, era do lendário Boi Mamão e toca que nem batera de Jazz. Nisso comecei reparar na banda. Os caras mandam muito bem, ainda mais tocando em casa, com a platéia cantando todos os sons.
Esse foi o último show. O pessoal do Sugar Kane ficou na sua área e o resto do povo voltou pra São Paulo. Rolou mais bagunça no ônibus, mais risadas e a convicção de que o underground está cada vez mais fortalecido. Todos os shows tiveram casa cheia, infra-estrutura bacana, respeito total entre as bandas, provando que a atitude não depende do estilo de som que o cara faz e sim da cabeça dele. Agora é esperar o DVD sair, pra conferir as performances, os bastidores e testemunhos dessa que com certeza foi a pioneira de outras ótimas tours que devem pintar por aí. Agradecimentos especiais: Césinha [Highlight] e todo povo da turnê por agüentar minhas pentelhações.
Mais: http://www.highlightsounds.com/porfavormeentendamal/
Fotos: Diogo http://www.fotolog.net/disturbios
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