15/02/2009 | por Eduardo Roberto

Eu acho o Start Your Own Revolution uma das melhores paradas brasileiras que eu já ouvi.
Ele tá bem produzido pra caralho.
Vocês fizeram lá fora ou fizeram aqui?
Não, a gente fez com o Rafael Ramos. Ele ia fazer esse disco novo, mas na época ele tava com uns problemas de agenda, produzindo um DVD para a Pitty, então ele não dropou a ideia. Depois falou que ia fazer e ficamos esperando. Depois ele falou "me fodi... estou ocupado pra caralho, não vou poder fazer". A gente precisava fazer porque tínhamos um contrato assinado na Alemanha, e outro aqui...
E era para quantos discos esse contrato?
A gente só fecha um disco por contato.
E é uma boa isso? Se você fechar mais de um pode dar mais dinheiro, não é?
Quando se é independente os caras não te dão dinheiro algum né?! O que facilita lançar o disco na Europa é que os caras de lá promovem o disco, eu não tenho que ir lá e promover. Eles trabalham junto com a minha agência de show, eu não preciso mandar disco do Brasil para lá, para os caras mandarem para o promoter... Eu não preciso fazer esse tipo de negócio, a gravadora lá se encarrega disso, de anúncio em revistas...
E como é para vocês no Brasil? Como você vê essa diferença de estrutura? Você já falou que a receptividade de lá talvez seja mais fácil, mas como rola a administração dessas coisas no Brasil?
A nossa gravadora não é uma gravadora pequena, que é a Dynamo, o braço da Century Media no Brasil. Por um lado é bom porque a distribuição é maior, mas o CD acaba ficando mais caro. E como os caras tem muito artista, a gravadora não da atenção exclusiva para você, e se fosse um selo menor isso poderia ser diferente. Mas o lance é que você ir à Americanas e encontrar o nosso CD. Quando a gente assinou com a Dynamo nós pensamos nisso. Porra, eu tava de saco cheio de distribuir meu próprio CD, de ir levando nas lojas... nao tava me levando a lugar nenhum.
As vendas já não são boas no geral. Todos os selos quebraram, praticamente todos! A chance é fazer com uma gravadora maior.
E você acha que está dando certo até agora?
Para mim está, porque ao invés de me preocupar com a agenda da banda e a distribuição de CD, eu me concentro na banda.
E faz música!
É! E a gravadora faz a venda. É interessante para eles que a gente toque, porque quanto mais tocarmos, mais vende. É do interesse deles que a gente faça musica e é do interesse deles promover a banda. Se eles não promoverem, não vai render, e isso não é negocio.
Estar em gravadora grande causa um maior impacto de mídia?
Não, na verdade a Dynamo é uma gravadora grande, mas não é uma major, que vai injetar um puta dinheiro e me colocar em uma rede de televisão. Ela tem um perfil mais independente, até porque as bandas que ela lança não são as bandas para a grande mídia. Não vão colocar um vídeo do Kreator no Fantástico...
Mas sem ser na grande mídia, tipo Globo ou Silvio Santos, mas ter uma resenha na Rolling Stone, esse tipo de coisa... Você acha que com gravadora grande tem mais chance?
Ah... Tem mais acesso, sim. A gente já saiu na Rolling Stone duas ou três vezes e isso sempre foi coisa deles [da Dynamo]. Eles mandaram os discos, não precisei ir lá na Rock Brigade, ou na Rolling Stone ou na MTV pra dizer: “ó, tá aqui o meu disco”. Eu não fiz isso, eles fizeram, eles que tem assessoria de imprensa. Esse tipo de trabalho toma um tempo do caralho. A gente tem uma musica que toca no Fantástico. (risos)
Sério?
É!
Nossa! Eu nem sabia, velho! É porque eu nem vejo a porra do Fantástico...
Pois é, porra, nem eu! (mais risos) Mas quando eu vi, estava tocando! Não sei como os caras pegam, mas era uma musica do Verge of Collapse.
Mesmo com a gravadora grande, vocês podem fazer o que quiserem no CD?
Podemos. Os caras só falam, “manda aí e é nóis”!
Se bem que vocês já tem 20 anos de estrada. Tem o muito merecido respeito, né?
A gente é muito conhecido, isso eu posso afirmar com certeza.
Mas tem uma coisa que me incomoda. Tanto o Dead Fish, quanto vocês, o Garage Fuzz, estão na estrada há 20 anos e tem uma resposta legal. Mas você não acha que poderia ter mais? Se vocês estivessem nos Estados Unidos, com os mesmos 20 anos de banda, com as mesmas músicas...
A gente estaria muito maior, com certeza.
Eu acho que dá para comparar com o Hüsker Dü, que era relativamente menor, existiu por menos tempo que vocês até e não deixa de ser um puta clássico. O Bob Mould está na ativa até hoje!
Que nem dizia o meu amigo Rodrigo do Dead Fish “brasileiro é zé povinho”, entendeu?! Não valoriza o que é nosso, só valoriza o que é de fora.
E isso acaba empurrando vocês para fora. Quantos shows na Europa você faz em turnê com o Nitrominds e quantos você faz no Brasil?
No Brasil eu faço bastante, mas a diferença é que lá eu posso tocar todo dia, e aqui não. Só nos finais de semana, ou, no máximo, na quinta. Lá fora eu faço 30 shows em 35 à 40 dias. Eu consigo média aqui quando trago as bandas gringas para cá e monto um roteiro, ou uma turnê. Durante a semana eu faço uma divulgação e no final de semana, estrada. Vou para o sul, sudeste, para o Rio, Vitória... A geografia do Brasil também não ajuda muito, já que somos um país muito grande. Mas isso não é uma desculpa, porque o EUA é imenso, é muito maior que o Brasil. E o custo de viagem também é muito alto. Por exemplo, quando a gente vai tocar em Manaus, onde cada passagem ida e volta custa R$900,00, é quase o mesmo valor de ir pra Europa.
E eu também acho que a cena em cada local do Brasil muda muito. Quantos anos você tem agora?
23.
Daqui a cinco anos você vai ter a mesma vontade que você tem hoje para ir em shows?
Então, fica a pergunta...
Você não vai, entendeu? Você cresce e para de ir. Aí vem uma galera nova, e nesse interim vem o emo... Essa galera mais nova não fica apegada a um movimento, é mais uma moda. E essas outras bandas que fazem parte da minha geração, Dead Fish, Garage Fuzz e toda essa leva aí, eles não conhecem! Conhecem lá o Glória, o Dance of Days... Eles não sabem quem a gente é.
É foda que a grande molecada que é consumidora e vai comprar os CDs seja impulsionada pelos modismos.
Eu tenho uma coluna na MTV que chama <a href="http://mtv.uol.com.br/hardcore/blog/">hardcore</a>. Estou dando umas dicas de bandas esdrúxulas lá! Bandas que eu encontrei na Europa enquanto estava em turnê, bandas antigas... E a molecada mete a boca: "Por que você não fala de Bad Religion? Por que você não fala do Pennywise?". Porra, eu não falo porque essas bandas nao precisam desse espaço! Vou dar de dica o Bad Religion? Os caras tem 5 milhões de acessos no Myspace, o que eu vou falar desses caras?
(mas a molecadinha lê o seu blog?)
lê, eu to com mais ou menos umas 1000 visitas por semana,
Talvez você colocar alguma coisa sobre o Bad Religion é uma boa para a molecada que tá vendo clipe do Gloria todo dia.
Mas ao invés de colocar o Bad Religion, posso colocar o Dag Nasty, o Minor Threat, o Hüsker Dü, enfim, as bandas que eu cresci ouvindo. Colocar o 7 Seconds, que fazia o som mais skate, crossover. Excel, No Mercy, Suicidal Tendencies... A ideia da minha coluna é tipo: "escuta uns bagulhos diferente aí, vai! Não vamos ficar nessa mesma merda!"
Porque aqui no Brasil quem gosta de Dead Fish, só ve a porra do Dead Fish! Não vê ninguém que esteja em volta.
Outra coisa que eu não entendo é o moleque curtir o Dead Fish, que está relativamente dentro de uma cena, com vocês, Cueio Limão e etc. São bandas tem um direcionamento mais ou menos parecido, estão na mesma curva, mas o pessoal acaba optando pelo que já conhece.
Exatamente!
Você acha que no exterior isso é diferente? Quem curte uma coisa dá atençao para outra?
Dá atenção para outros sim, porque lá em um dia da semana está tocando uma banda de Israel, no outro dia uma banda dos Estados Unidos, na outra esquina uma banda da Inglaterra, da França... A oferta é maior, e o cara vai lá pra curtir, conhecer um bagulho novo.
É foda quando o cara vai pro show só pra fazer uma social. A banda pouco importa, o que importa é que a galerinha vai estar lá...
É, o movimento está estranho. Estava pior, agora deu uma melhorada.
Por quê?
Quando o emo estava em alta mesmo, tava foda!
Não tinha shows ou não tinha público?
A galera não tava indo aos shows. Aliás, isso é algo que vem acontecendo, o público geral diminuiu pra caralho, e não foi só pra gent, diminuiu pra todo mundo.
Então esse papo de que internet é a solução final paraa divulgar os shows e o caralho, nao tá dando tão certo quanto se imagina?
Eu acredito que não, cara. Talvez seja porque a galera cresceu também, tá fazendo faculdade, trampo, então não tem mais tempo pra ir. A pivetada mesmo vai em qualquer merda, geralmente em show de emo!
Mas talvez a banda não tenha que dar uma modernizada no som?
Fugir da proposta?
Não sei...
Muita gente nos disse quando a gente estava na Deckdisc "canta em português que vocês vão ganhar dinheiro para caralho!" Mas, porra, não é a nossa proposta.
Eu quero fazer o meu som. Você gosta, legal; não gosta, foda-se! Se você quer ir no nosso show, vai; nao quer ir? Foda-se.
Fora que hoje em dia tem muito mais shows de bandas gringas no Brasil, o que acaba desviando a atenção do produto nacional.
Tem também um problema social no meio disso tudo. O cara não tem dinheiro para ir em todos os shows, e acaba dando uma priorizada. Se vem dez bandas gringas no mês, mais um monte de banda daqui tocando, ele vai priorizar.
E com essa diminuição de público nos shows o preço da entrada também aumenta.
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